DA ESPIRITUALIDADE BÍBLICA PARA UM ECUMENISMO HUMILDE
Jones Talai Mendes(1)
PALESTRA NO CONIC = Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – Sul – Porto Alegre – RS - 25 de novembro de 2008.
Nessa pequena e limitada reflexão, gostaríamos de dizer que nossa experiência enquanto Centro de Estudos Bíblicos nos proporciona algumas vivências privilegiadas, tanto no nível da espiritualidade, para nós, pautada na vida e na Bíblia, quanto na vida ecumênica junto ao povo simples de Deus presente em diversas denominações cristãs. O Reino de Deus, costumamos dizer, se manifesta em diversos lugares e a medida que nossas igrejas são fiéis no discipulado, são antenas captadoras e difusoras desse Reino. Ao mesmo tempo gostaríamos que essa experiência que trazemos, também sirva como contribuição para a caminhada oficial do ecumenismo que o CONIC representa. Enquanto CEBI somos um organismo ecumênico que quer estar em comunhão com a caminhada das igrejas. Nosso assunto não será nenhum discurso sobre teologia bíblica nem uma teologia ecumênica sistemática. É uma fala até mesmo fragmentada, própria da razão pós moderna.
A ciência nos informa: estamos em um pequeno planeta. Este planeta está em um sistema solar localizado na periferia de uma galáxia chamada via láctea. Nesta galáxia há 100 bilhões de outros planetas e ela própria está entre outras 100 bilhões de galáxias. Nossa pequenez infinitesimal diante da grandeza do universo pode nos levar a uma reflexão sobre o criador dessa grande “oikia” que habitamos. Nossa ecuméne, atualmente, parece ser bem maior do que outrora pensávamos. Apesar do conceito de Espiritualidade não ser um termo especificamente bíblico, a Bíblia fala e promove a antropologia do ser-humano-espiritual.
Vivenciamos um período novo na história. Muitos chamam esse momento de pós, ultra ou meta modernidade. O fato é que estamos em uma mudança de época notadamente singular na história humana, que ao partir daquilo que classicamente conhecemos por modernidade, não é mais ela, mas um novo mundo que se afirma. Isso ocorre ao menos no ocidente calcado na cultura judaico-cristã.
A última vez que um movimento desse porte aconteceu foi na passagem do período medieval para o período moderno. Mudou o paradigma do teo para o antropocêntrico. A rainha mãe teologia foi substituída pela rainha da física enquanto ícone da ciência.
(1)
- É coordenador do CEBI-RS, professor de Teologia e assessor teológico da Fraternidade Palavra e Missão.
Michelangelo pintou na capela sistina Adão e Deus estendendo seus dedos um ao outro. O mundo de Deus dava lugar ao mundo do humano. O advento da idade moderna marcado pela astronomia copernicana, gerou uma nova epistemologia ao colocar os pés no sol como centro e nos tirou do lugar privilegiado da encarnação. O paradigma do mundo medievo foi abalado. Galileu ratificou experimentalmente essa descoberta colocando uma pá de cal em quem ainda queria postergar a dimensão contemplativa do mundo. Esse mundo foi abarcado, tecnificado, medido e calculado e seu senhorio foi convertido em escravo a nosso serviço. A física de Newton evidencia leis em que o universo parece um grande relógio. Uma máquina. Como tal também portador de uma mecânica que pode ser cartesianamente desmontável e conhecível. Quando o astrônomo Halley deu à comunidade científica, a partir de cálculos matemáticos, a elipse perfeita de um cometa, isso foi a glória da razão. Os astros do céu obedecem a leis que a razão decifra. O que mais ela não poderia fazer? O cartesianismo na ultra especialização dos saberes nos tornou entendidos nas partes, mesmo sem sabermos muito do conjunto.
Aqui nasce o mito da modernidade. Para nós hoje é fácil falar de “mito da modernidade”, porque estamos na outra ponta. Mas no passado havia grande convicção de que tudo era possível aos humanos esforços
As grandes “descobertas” de caráter imperialista reconfiguraram o senso antropológico da Europa. Os índios foram cobaias dos donos do “Novo Mundo”. As invasões coloniais européias traduzem o sentido dominador do qual ainda somos herdeiros e esse mau senso imperialista por vezes nos acompanha mesmo em nossas missiologias eclesiais: Para levarmos a Salvação muitas vezes temos que anunciar a Perdição. Queremos salvar até quem não sabia que estava perdido e o fazemos prosélitos especialmente de nosso “modus vivendi”.
Nesse sentido a espiritualidade foi reduzida a uma “superstição”. Augusto Comte tripudiou a religião com sua filosofia científica colocando-a no mais primitivo dos estágios humanos. O conhecimento racional do mundo também expulsou o sentimento e a intuição de seus domínios. Tomás de Aquino já havia advertido que “A razão é a imperfeição da inteligência”. Mas também este foi relegado pelos modernos. Todos nós conhecemos pessoas muito simples que não estudaram, mas que são sumamente inteligentes. Que sabem “intus legere” diante do mundo. Que sabem ler o mundo por dentro. Nessa perspectiva age e opera o CEBI quando gasta mais seu tempo nas comunidades do que nos, algumas vezes rançosos centros universitários.
Nós, que estamos na outra ponta da modernidade sabemos que ela fracassou: somos mais de 6 bilhões de pessoas e temos a metade delas vivendo na linha da pobreza. Mais de 1 bilhão de pessoas abaixo da linha da miséria. 100 mil pessoas morrem de fome todos os dias. A cada dia desabam 10 torres gêmeas repletas de crianças e não parece haver grande comoção por causa disso. Não nos parece que tem alguma coisa errada nisso? O ineditismo do socorro mundial, assinalado na assembléia nacional do CONIC, ao sistema financeiro não contrasta com isso de alguma forma!? Não dá para dizer que a modernidade foi um sucesso. Não realizou suas promessas. Hoje, quatro pessoas americanas tem dinheiro equivalente ao PIB de 42 países com 600 milhões de habitantes. Alguém se comove com isso?
A modernidade trouxe grandes contradições ao glorificar o sistema mercantil capitalista e mesmo o marxismo, também moderno racionalismo, parece que não conseguiu convencer o mundo da irracionalidade do primeiro. O capitalismo conseguiu privatizar os bens materiais e socializar os bens simbólicos. O comunismo socializou os bens materiais e privatizou os bens simbólicos. No comunismo (ainda socialismo) só os burocratas podiam sonhar. No capitalismo todo o povão sonha mesmo que não tenha nada para comer. Liga a TV e sonha com o que nunca terá. A não ser que ganhe na mega sena. Ao que parece nenhum sistema conseguiu unificar Justiça com Liberdade. Nossa liberdade democrática parece ser mais virtual do que real.
A questão da espiritualidade
Para falar de espiritualidade é importante olhar os paradigmas através dos quais estamos falando. Com o advento da chamada “pós modernidade”, movimento este o qual ainda não está formatado, pois estamos no “olho do furacão”, em pleno movimento. A pos modernidade ainda está nascendo. Os pilares institucionais da modernidade estão em crise, (4), a Família (com as novas questões de gênero, da biotecnologia, dos papéis familiares); O Estado (mínimo ou máximo); A Escola (e as concepções teleológicas da educação) e a Religião (antigamente nascíamos e morríamos dentro de uma religião e igreja enquanto instituição), aonde o ecletismo religioso é um fato cada vez mais aceito socialmente. A pessoa considerada “normal” e conceituada era a pessoa que se adequadava a esses quatro pilares.
O “novum” hoje é que não há uma crise de “crença”. Há até um excesso de crença. Na modernidade ser crente era visto com uma grande desconfiança. Dificilmente encontrávamos uma pessoa “esclarecida” que se proclamasse crente. Um cientista, um professor universitário nem tinha coragem de se manifestar como crente para não ser visto com desconfiança. A religiosidade popular, do povo simples, é marcada pelo fenômeno marcante da crença. Caiu o mito da ideologia racionalista. Não há mais uma filosofia da história racionalista.
A física quântica abalou e recolocou os modelos de certeza empírica ao dizer que um determinado fenômeno como a luz se “comporta” ora como onda e ora como partícula. Consagra-se o conceito de Simultaneidade. Uma coisa pode ser duas ao mesmo tempo colocando em crise a própria ontologia clássica, aonde a religião assentava seus alicerces e seus postulados.
Genial e Ironicamente o apóstolo Paulo fala de “corpo espiritual” antecipando assim o que hoje se torna cada vez mais plausível. A matéria é espiritual e é energia condensada. Tudo o que nós vemos é energia condensada que no mundo sub-atômico está em constante movimento, em constante choque. Ou seja, nem tudo tende ao “Repouso” como diria Aristóteles, um dos pilares do pensamento ocidental. Todos os nossos átomos são parentes e tem ancestrais cósmicos arqui-unidos. A nova ciência atesta nossa unidade primordial sinalizando que o nosso atual sonho de unidade está bastante sintonizado com nossa ancestralidade cósmica.
Assim como com poucas letras construímos bibliotecas inteiras, o universo está constituído em suas multiformes manifestações. É só saber “combinar” um pouquinho. Com o aldeamento do planeta, vivemos uma mescla enorme de tradições religiosas. Esse processo pode ser vivido de maneira criativa, pró-ativa ou reativa e saudosista de um mundo de cristandade que dificilmente voltará. As tradições religiosas forçosamente se encontram, exigindo de nós uma resposta a altura. Não podemos continuar dando respostas para perguntas que não são mais feitas.
Esse processo também traz graves problemas como o fortalecimento da Religião do Mercado e da Mercantilização da Religião. O espírito consumista também se tornou um jeito de ser religioso. Os shopings são como igrejas (com seus sacerdotes, acólitos e liturgias) e as igrejas muitas vezes são como shopings (com a prateleira dos bens religiosos a disposição do consumo) e esses dois espaços tem suas eucaristias e seus sacrifícios.
O fato é que hoje quase nada escapa do espírito do consumo. Existe até cerveja “Che Guevara” e refrigerante “Jesus”. O sistema vai processando tudo. Também a fé religiosa e os sonhos de outro mundo possível.
A questão da espiritualidade engloba as dimensões da inteligência. O que a pós modernidade suscita, e que pode ser positivo, é que as pessoas podem trabalhar as questões da subjetividade e da consciência. Os poderosos instrumentos de comunicação sistêmica só se preocupam em expandir o mercado. Interessa apenas alargar o consumo. Temos muita informação e pouca cultura. Hoje a busca forte da espiritualidade também pode ser interpretada como uma busca de recuo. Recuo diante de uma civilização tão sensitiva, tão hedonista que cai em um marasmo existencial profundo.
O senso da espiritualidade tem que escapar do balaio do consumo. Quantas propostas “espirituais” desvinculadas da exigência da justiça, do cuidado com os pobres e portadoras de irresponsabilidade ecológicas, étnicas, de gênero existem? Mesmo no interior de nossas próprias denominações encontramos propostas do tipo, “Seja feliz com Jesus”, sem preocupação com o aspecto sócio-comunitário. Temos diante de nós o desafio do Protagonismo Espiritual. Esse protagonismo será fruto da maturidade espiritual. Essa maturidade espiritual poderá ocorrer com nossa ajuda pedagógica eclesial, se assim o quisermos e nos planejar para isso.
A construção do protagonismo espiritual pode incomodar, de certa maneira, o aspecto institucional de nossas igrejas. A doutrina, o mandamento, a proibição, podem dar mais espaço à lei do amor e da responsabilidade compartilhada. Podemos observar dois retratos espirituais. O primeiro é o retrato do fariseu e o segundo é o retrato do cristão. O paradigma farisaico diz que Deus habita o cume de uma montanha. A supremacia absoluta e inatingível de Deus afastava o crente. A pratica de virtudes morais, confundida por vezes com o cumprimento de leis externas e estranhas à autonomia espiritual, deveria aproximar a pessoa de Deus. Mas como somos todos (as) pecadores, tal qual o mito de Sísifo, ao subir a pedra pela montanha e ela cair sempre de novo vai surgindo um cansaço espiritual. A espiritualidade das agendas, muitas vezes tarefeiras pode nos conduzir para a estafa espiritual.
A espiritualidade do cristão autêntico é o contrario disso. Não há montanha, não há tarefismo, não há Deus lá em cima. Deus é Emanuel, conosco. Deus é amor. João diz que quem ama, conhece a Deus. A experiência do amor é a experiência de Deus. Do amor encarnado, compassivo que quer andar com o outro (a). Jesus chama Deus de ABBA. Jesus experimentava a Deus como amoroso. A diferença é simples: um age em função do externo. O outro age em função do amor internalizado. Do amor comprometido. A experiência de Deus produz amor e fidelidade. Produz comunhão e unidade.
A Espiritualidade Bíblica
Afinal que é uma espiritualidade bíblica? Na Revelação bíblica a espiritualidade se traduz como uma forma de ser no mundo. A Bíblia é biblioteca, portanto muito diversa quanto às propostas de espiritualidade. Diante de numerosas formas de espiritualidade possíveis devemos assinalar que é próprio da espiritualidade bíblica a escuta a Deus. O “shema Israel” (Dt 6, 4) é ponto de partida para duas correntes de espiritualidade bíblica. A espiritualidade profética e a espiritualidade contemplativa.
a) Espiritualidade profética:
É a espiritualidade da indignação. Da pessoa que denuncia as opressões e as injustiças diante dos poderes deste mundo e anuncia a esperança do Reino. Quem porta a profecia é apaixonado (a) pela causa da justiça, arrebatado (a) pelo zelo da Aliança. Esta é sua espiritualidade. Jesus viveu profundamente a espiritualidade da indignação profética diante da hipocrisia dos poderosos que se atinham a regras e exigiam do povo as minúcias do cumprimento da lei enquanto eles próprios viviam infringindo os grandes mandamentos (Cf. Mt 23, 13-36 e 25,31-46).
A espiritualidade profética nos dá forças para resistir a perseguição e a calúnia, ao mesmo tempo em que nos leva a uma auto-crítica capaz de nos fazer desconfiar de nosso próprio zelo, que pode ocultar um secreto desejo de dominação. A espiritualidade profética nos leva a admitir que algumas vezes, aquilo que denunciamos nos outros, pode estar presente em nós mesmos. E pode ser que um outro nos diga, como Natã a Davi: “Este és tu! (2Sm 12, 7). A espiritualidade profética brota de uma intimidade com Deus, a uma espiritualidade do Êxodo e da Kénosis. Nos leva ao caminho da humildade e da contemplação.
b) A Espiritualidade Contemplativa:
Longe de ser passividade, alienação ou omissão, a espiritualidade contemplativa significa viver com intensidade cada momento. É uma atitude de quem mergulha nos fatos e nos acontecimentos, para dentro deles descobrir a presença ativa e criativa de Deus, que sua Palavra provoca na história. A contemplação é atitude de sabedoria. Na Bíblia a Sabedoria brota das coisas simples do cotidiano. A sabedoria extrapola o mundo bíblico e é presente em outras culturas e tradições distintas das nossas. A Espiritualidade contemplativa vive um sentimento de pertença e integração com a natureza, tão importante para a sobrevivência de nosso planeta na atualidade. Vive uma dimensão celebrativa e festiva. Sim, a festa faz parte da espiritualidade contemplativa. É sinal de aceitação da Graça de Deus. O povo de Israel gastava dias somente nos preparativos para suas festas. Podemos até perguntar: O quanto nossa caminhada ecumênica tem feito festa? Quais os limites que colocamos ao celebrar a vida que ganhamos de Deus?
Um Ecumenismo Humilde?
O que é um ecumenismo humilde? Por definição, todo o ecumenismo não teria que ser humilde. Sim! Certamente. Voltamos à atitude de escuta. Para falar é necessário primeiro calar! Aprender da ecumenicidade do povo simples de Deus, que vive relações ecumênicas até sem saber disso. A segunda tese do texto de Rudolf Von Sinner intitulado “12 teses sobre o ecumenismo” diz: “2. Para poder se relacionar significativa e confiantemente com outros, é necessário que nós - como cristãos e igrejas - adotemos atitudes que sejam marcadas por honestidade, humildade e responsabilidade mútua. Qualquer crítica ao outro deve começar com uma autocrítica (cf. Mt 7.3-5). A confissão de nossos pecados contra Deus e de uns contra os outros e o perdão de Deus e nosso perdão mútuo são centrais. Antes de julgarmos, deveríamos procurar compreender. O espaço ecumênico deveria proporcionar uma mesa redonda onde os cristãos possam sonhar juntos em vez de encenar um pesadelo”.
Um ecumenismo humilde ainda deverá contemplar o esforço concreto de cada uma das igrejas empenhadas na caminhada da unidade. É necessário fortalecer o CONIC tanto no aspecto da presença humana quanto no aspecto do apoio material. Recursos humanos e materiais devem ser potencializados ao CONIC para que nosso testemunho de unidade seja também um ecumenismo diaconal. Isso fará de nosso ecumenismo algo visível e concreto.
Fomentar e formar “facilitadores ecumênicos”. Pessoas dotadas de carisma ecumênico que possam desenvolver uma pastoral da unidade em suas respectivas igrejas e também fora delas, criando espaços de formação ecumênica e ações conjuntas sendo, para isso, legitimadas em seus trabalhos por suas comunidades eclesiais. O ecumenismo não pode ser um anexo das igrejas, mas uma forma de ser.
Conclusão
Não é fácil falar de espiritualidade cristã nem de ecumenismo no pluralismo cultural e religioso de hoje. Uma espiritualidade bíblica nos levará a um ecumenismo humilde. Para um ecumenismo que lembre e celebre a nossa origem material e espiritual comum. Um ecumenismo que lide com o poder como uma forma compartilhada de serviço. Não como forma de disputa por espaço. Podemos anunciar a vinda do Reino de Deus pautados em uma busca comum. Em uma esperança comum, parafraseando Jürgen Moltmann.
A Bíblia, em si mesma, não produz ecumenismo, mas a busca de unidade passa necessariamente por ela. Uma hermenêutica da confiança pode ser usada para ler a bíblia em conjunto. Essa é a hermenêutica presente na Leitura Popular da Bíblia. O ecumenismo que nasce do encontro entre pessoas de boa vontade é próprio de espírito de Deus. O CONIC, célebre instituição ecumênica tem muito que celebrar e com a graça de Deus, muito a caminhar. Assim seja. Muito obrigado!