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ENCONTRO VITAL ENTRE FÉ E VIDA
 

Uma apreciação ecumênica do documento: A Palavra de Deus na vida e na Missão da Igreja

Sínodo dos Bispos. XII Asembléia Geral Ordinária Instrumentum LaborisCidade do Vaticano, 2008.

 

Revdo. Dr. Humberto Maiztegui Gonçalves

 

Doutor em Teologia, com área de concentração em Bíblia-AT, pelo Instituto Ecumênico de Pósgraduação da Escola Superior de Teologia em São Leopoldo RS, Brasil. Sacerdote da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, professor no Seminário Dom Egmont Machado Krischke em Porto Alegre RS e assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos em São Leopoldo RS.
 
  1. O SENTIDO DESTA APRECIAÇÃO


O documento “A Palavra de Deus na vida e na Missão da Igreja” condensa um conjunto de reflexões que, conforme indica sua introdução, orientaram diferentes conferências tanto de “Igrejas Orientais Católicas” quanto de outros organismos dentro da Igreja Católica Romana no mundo. A complexidade da consulta e sua amplitude transformam seu resultado em um verdadeiro “mosaico”1. De fato, esta característica do documento o torna um tanto repetitivo e, portanto, irei buscar, com respeito da sua estrutura, tratar, às vezes transversalmente, alguns assuntos nos quais entendo que possa oferecer alguma contribuição.

Meu olhar é ECUMÊNICO, como de um irmão que olha de fora sem querer ser um “out-sider”, mas um cristão comprometido com a mesma Palavra Viva, um companheiro de caminhada, que foi educado pelo Centro de Estudos Bíblicos, através de mestres e mestras de origem católico-romana, luterana, metodista e anglicana. Sou um exegeta latino-americano, com isso quero dizer que quero ser primeiro um intérprete da Vida criada através do Verbo, que por sua vez nos chega como Palavra na nossa vida, para nossa vida, e para a vida do mundo. Buscarei guiar esta apreciação pelas referências bíblicas, neotestamentárias, que orientam o documento e, através delas, o reconhecimento da compreensão do sentido da Palavra de Deus que nós é ali apresentada.

1 Introdução, 3o e 4o parágrafos.

 
  1. PALAVRA COMO VERBO ENCARNADO

Evidentemente a principal referência teológica e, poderíamos dizer, que

a coluna vertebral de todo o documento é o Verbo Encarnado, conforme apresentado na introdução do Evangelho segundo São João (1,1s). A referência, ao meu ver de grande relevância, identifica a Palavra de Deus com o próprio Cristo, ao tempo que, sem dicotomizar, a diferencia da “palavra escrita” ou “palavra humana”, pela qual se recolhe e transmite o sentido maior do Verbo:

O Verbo fez-Se carne’ (Jo1,14): a Palavra de Deus, última e definitiva é Jesus Cristo, a sua pessoa, a sua missão, a sua história, intimamente unidas (...) Ele é o Evangelho deus para toda pessoa humana (Mc 1,1)1Em vista da Palavra de Deus que é o Filho encarnado (...) Assim, a Palavra de Deus é expressa com palavras humanas no anúncio dos Profetas e Apóstolos2.

Sendo a Bíblia Palavra de Deus em linguagem humana (...)3 Porque a Escritura está intimamente ligada à Igreja, esta tem um papel essencial no acesso à Palavra na sua genuinidade fontal4 (...). Deve reconhecer-se a relação de distinção e comunhão entre Bíblia e Palavra de Deus. É a própria Bíblia que afirma a não coincidência material entre Palavra de Deus e Escritura (...) Para no Novo Testamento, essa Palavra é o próprio Filho de Deus, o Verbo feito carne (...) A Palavra de Deus, portanto, não se circunscreve ao Livro; chega ao homem (sic.), também através do caminho da Igreja, Tradição viva (...) A comunidade cristã torna-se, por conseguinte, sujeito da transmissão da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, sujeito privilegiado para captar o sentido profundo da Sagrada Escritura, o progresso da fé e, portanto, a evolução do dogma.5

Este enfoque teológico-doutrinário do Verbo Encarnado permite, como demonstra amplamente o documento, entender a Palavra não apenas nas Escrituras Sagradas, mas, vinculá-la, ou melhor, aos meios de graça que tem sua expressão orgânica na Igreja (dentro dos quais destacam-se os sacramentos):

À luz da Revelação, a Palavra é o Verbo eterno de Deus, a segunda pessoa da Trindade, o Filho do Pai, fundamento da comunicação intra-trinitária e ad extra6 (...) A Palavra de Deus (...) segundo o plano do Pai (...) culmina na Páscoa e terá sua realização plena quando Jesus entregar o Reino ao Pai (...)7 A Palavra anunciada e ouvida pelde para se tornar Palavra celebrada através da liturgia e dos sacramentos, para entrar assim a motivar uma vida segundo a Palavra, através da experiência da comunhão, da caridade e da missão8(...) Por meio da Palavra celebrada, de modo especial na Eucaristia, os fiéis inserem-se cada vez mais na Igreja comunhão, que tem sua origem na Trindade, mistério da comunhão infinita9.

Falar da Palavra de Deus é, então, falar de Jesus Cristo e do conjunto da vida cristã, assim como da missão de Deus através da Igreja. No entanto, o documento deixa claro que, mesmo sem identificar automaticamente o Verbo com as Escrituras do Antigo e Novo Testamento, estas ocupam um lugar privilegiado no conhecimento da Palavra. Nada melhor para ilustrar isso que duas citações de São Jerônimo presentes no documento:

Quem não conhece as Escrituras não conhece a Cristo (...) A carne do Senhor, verdadeira comida, e o seu sangue, verdadeira bebida, esse é o verdadeiro bem que nos é reservado na vida presente: alimentar-se com a sua carne e beber o seu sangue, não só na Eucaristia, mas também na leitura da Sagrada Escritura. É, de fato, verdadeira comida e verdadeira bebida a Palavra de Deus que obtém do conhecimento das Escrituras10.

A esta belíssima imagem sacramental da Palavra o documento acrescenta outras neste mesmo sentido, como a de Santo Agostinho: “...Quando lês a Bíblia é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus11; ou a do Papa João Paulo II que declarou que “a Palavra de Deus é a primeira fonte de toda a vida espiritual cristã (...) alimenta uma relação pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade salvífica e santificadora12.

Esta compreensão leva à questão central do documento que é a absoluta e irrevogável necessidade para a vida cristã de aceder ao sentido, profundidade, amplitude, práxis, comprometimento e integração (entre outros) entre o Verbo Encarnado (assim como é apresentado através das Escrituras e vivido na comunhão com Deus Trino e na Igreja) e a Escritura Sagrada (como palavras humanas, históricas, sociais, econômicas, políticas e culturalmente apresentadas dentro de um contexto específico; no entanto, portadora privilegiada das verdades perenes da fé no seio da Igreja, suas tradição e suas forças vivas).

As demais referências bíblicas, como geralmente acontece nos documentos eclesiásticos em todas as Igrejas Cristãs, estão em função do que se tem afirmado, especialmente na constituição Dei Verbum (de 18 de Novembro de 1965). Contudo, mesmo estando no ano Paulino, o documento é fortemente joanino, outorgando-lhe consistência e coerência na relação com sua coluna vertebral. Entre as diversas citações do Quarto Evangelho encontramos: Jo 5, 36 (“são as obras que o meu Pai me deu para fazer...são elas que prestam testemunho ao meu respeito de que o Pai me enviou” TEB) e 39 (“são precisamente elas (as Escrituras) que dão testemunho de Mim”13); Jo 17,3-4 (“é esta a vida eterna; que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo”14”Eu te glorifiquei sobre a terra, conclui a obra que me deste fazer”TEB); Jo 3,13 (“E no entanto ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” TEB)15 16 e 34 (“diz as palavras de Deus”); Jo 2,1-12 – Bodas de Caná da Galiléia – e Jo 19.25-27 (presença de Maria, a irmã de Maria e Maria Madalena aos pés da Cruz e união maternal e filial entre João e Maria)16; Jo 16,13 (“quando vier o Espírito da Verdade ele vos conduzirá a toda verdade...”)17 e dentro da pneumologia joanina, ainda Jo 14,15-17.25-26 e 15,26 -16,15)18; Jo 6, 63 (“É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida” TEB)19; Jo 13,34-35 (O mandamento novo do amor, como Cristo amou)20; Jo 5,17 (“o meu Pai até agora está trabalhando, e eu também estou trabalhando” TEB, sobre uma cura no Sábado); Jo 10,10 (“eu vim para que os homens tenham vida e vida em abundância”TEB)21.

O documento parece autorizar, e até exigir, que qualquer observação que venha a ser feita sobre ele esteja igualmente inspirada na revelação joanina do sentido do Verbo Encarnado (Jo 1,1-18) e da sua relação com os sinais e palavras de Vida Eterna (Jo 6,68b) no sentido de que unidos a Ele todos possam crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (Jo 20,31). Lamento, no entanto, o não aproveitamento do prólogo da Primeira Epístola de João onde se usa a belíssima imagem de “Verbo da vida” TEB, “tou logou tes Zoes”.

Entre os Evangelhos Sinóticos são citados Marcos (em quantidade considerável) o que é compreensível por ser em si, a forma mais resumida da expressão do Evangelho de Jesus Cristo. Ele aponta para a unidade entre Jesus e o seu Evangelho e entre o Evangelho e o Reino (Mc 1,1 e 14-1522). Outra forte referência tomada deste Evangelho é a Parábola do Semeador23. Há mais duas citações em que esta mesma parábola é apresentada a partir de Mateus (13,1-9.20-27)24. A parábola aplica-se ao missionário da Palavra Viva. A metáfora da semente que se transforma em planta e dá fruto, ao tempo que se harmoniza com o trabalho de quem semeia ao longo do cominho em terrenos diferenciados, com resultados diferenciados. Outra referência de Marcos ilustra o sentido universal ou católico da Palavra Viva, sendo ela destinada a todas as criaturas, oportunamente apresentada, entre outras, na sessão em que se refere ao diálogo interreligioso25.

O Evangelho segundo São Lucas constitui-se uma outra referência importante no documento. Deste Evangelho se aproveitam dois aspectos que lhe são exclusivos: o anuncio da missão de Jesus Cristo, a partir da leitura do rolo do Profeta Isaías na Sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-21; cf. Is 61,1-3) e o diálogo no Caminho de Emaús (Lc 24,13-34 extensivo á aparição aos Onze em 24,36-49). A escolha é plena justificada pela densidade teológica destes textos.

Em relação ao episódio na Sinagoga de Nazaré o documento diz: “A mútua pertença entre povo e Sagrada Escritura é celebrada na assembléia litúrgica, que é o lugar em que ser realiza a obra de acolhimento da Bíblia. O discurso de Jesus na Sinagoga de Nazaré (...) é significativo neste sentido. O que ali aconteceu volta a acontece todas as vezes que se faz uma proclamação da Palavra de Deus numa liturgia”26. Enfim, o documento vê aqui como o Verbo Encarnado e a Escritura se tornam “um” na história, e observa que isso acontece em uma liturgia como espaço propício e especial para este encontro (especialmente quando Jesus diz: “hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir” Vozes). Até aí, tudo bem. O problema é o que aconteceu com o Verbo nesta ocasião. Ele foi rejeitado, expulso e quase morto pelos seus ouvintes. Esperemos que isso não se repita “todas as vezes que se faz uma proclamação da Palavra de Deus” (como diz o documento). Este texto pode iluminar a reflexão, com muito maior clareza, se tomado como indicativo do anuncio de Missão Libertadora do Messias dentro do que foi chamado de “opção preferencial pelos pobres” ou “evangelização a partir das pessoas empobrecidas e excluídas” (cf. Lc 4,18).Ou ainda como exemplo da ligação entre as esperanças do Antigo Testamento (Is 61,1-3) e a presença do Verbo Encarnado na história da humanidade.

O caminho de Emaús (Lc 24,13-35), apresentado no documento como outra referência importante, é um texto Eucarístico por excelência! Ele exalta a importância da presença do Verbo como Palavra Viva e como intérprete das Escrituras na peregrinação cristã (mesmo quando fugindo e com dúvidas). O documento nos apresenta este texto dizendo: “Mas também é verdade que a Palavra de Jesus – ou melhor poderíamos dizer Jesus-Palavratem de ser compreendida, como Ele mesmo dizia, segundo as Escrituras (...), ou seja, na história do povo de Deus do Antigo Testamento, que O esperou como Messias, e agora na história da comunidade cristã, que O anuncia com a pregação, medita n´Ele na Bíblia, e experimenta a sua amizade e guia”27. E ainda, se referindo à relação entre Antigo e Novo Testamento, “a práxis litúrgica, que proclama sempre o Texto Sagrado, segundo a afirmação do próprio Jesus no episódio de Emaús, onde o Mestre ‘começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito’ (Lc 24,27)”28. E ainda a afirmação “O episódio de Emaús é um modelo exemplar de encontro do crente com a própria Palavra Encarnada (cf. lc 24,13-35)”29. Me parece que esta referência, em absoluta harmonia com o sentido do Verbo Encarnado, resulta em um dos subsídios fundamentais apresentados pelo documento, apontando alguns princípios teológicos que certamente auxiliarão na resolução de algumas das questões mais complexas indicadas no documento como: leitura do Antigo Testamento nas comunidades (e interpretação de suas passagens mais difícieis)30, a relação entre Palavra e Sacramentos31, a relação entre exegese, magistério e leitura popular32, o sentido da leitura ecumênica das Escrituras para o enriquecimento mútuo, etc.

O Evangelho segundo São Lucas oferece, como apoio à referência principaç do Quarto Evangelho, a base mariológica do documento, citando, Lc 1,39.45 e 2,19 e relacionando estas passagens com as Bodas de Caná da Galiléia (João 2) e o estabelecimento da nova relação maternal e filial entre João e Maria aos pés da Cruz. Maria é apresentada no documento como modelo de escuta e seguimento da Palavra: “a figura da Virgem Maria, que viveu de forma incomparável o encontro com a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus (...) tornou-se modelo providencial de toda a escuta e anúncio (...) acolhe na fé,medita, interioriza e vive intensamente a Palavra (Lc 1,38; 2,19.51; At 17,11) (...) escutava e conhecia as Escrituras, meditava-as no coração (...) símbolo para nós, para a fé dos simples e para os doutores da Igreja”33.

O modelo de Maria é indiscutível, no entanto, o documento apresenta uma Maria que, ao meu ver, esconde seus momentos de dúvida, mesmo que poucos (como na anunciação, quando não disse “sim” sem questionar, cf. Lc 1,34), ou quando foi procurar Jesus para retirá-lo do meio da multidão, provocando uma incisiva resposta que certamente tem a ver com o assunto deste documento: “Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Maria em Caná da Galiléia, segundo a tradição joanina, provoca o primeiro milagre de Jesus. Portanto, ela não parece tão passiva, nem escondida, nem uma mera “ouvinte” e, muito menos, silenciosa. Maria é ativa, provocativa e pro-ativa, ordenando aos serventes: ”Fazei tudo o que Ele vos dizer” (Jo 2,5b). Gostaria muito de sentir que Maria dá para nós hoje a mesma ordem, e que ao cumpri-la o milagre do Verbo aconteça no meio de nós! (tanto para os simples, quantos para os doutores, quanto para todos os seus ministros e ministras). Finalmente, parece-me um grande esquecimento deixar de ver a Maria como profeta no Magnificat! (Lc 1,46-55). Ela resgata a grande tradição profética das mulheres bíblicas, de Ana, mãe de Samuel (1 Sm 2;1-10), em uma estreita e inegável relação. Mas também de Miriam que celebra com as mulheres a vitória sobre a morte e a opressão (Êxodo 15,20-22) e de Débora, chamada “Mãe, em Israel” (Jz 5,7b). Esta Maria, que acolhe o Verbo em suas entranhas, também questiona, também duvida, também profetiza, e por isso nos “compreende” no sentido mais amplo e inclusivo do termo.

As outras referências de Lucas, especialmente aquelas do capítulo 8, 18.21; estão ligadas as de Mateus 7,21-27 sobre o cumprimento da Palavra34. Vejam que fantástica relação como o sentido de maternidade e fraternidade dada pelo texto já citado onde Jesus nomeia como sua família os que “ouvem a palavra e a põem em prática”! O convite para o crente, segundo o documento é, “uma fé que reconhece a Palavra de Deus como estímulo primário para conversão eficaz, luz para responder às tantas perguntas do crente, guia para um discernimento sapiencial da realidade, solicitação para cumprir a Palavra (Lc 8,21), e não apenas lê-la ou dizê-la, e, por fim, fonte permanente de consolação e esperança”35.

Entre as Epístolas a referência principal é, sem dúvida, a Carta aos Hebreus 1,1-2 e 4,12-13. Os primeiros versículos da Carta apresentam-se como ilustração confirmativa do prólogo de João (DV,4). No entanto, ao meu ver, a ênfase deveria estar em Hb 1,3, que não é citado no documento: “Este Filho é o resplendor da sua glória e a expressão do seu ser, e sustenta o universo pelo poder da sua palavra” TEB)36. Não resta dúvida que os primeiros dois versículos são de grande importância. O primeiro parece-me igualmente ligado aos episódios de Emaús e da Sinagoga de Nazaré, e, até o próprio Cântico de Maria (pela ligação entre o AT e o Verbo) 37. Já o segundo versículo, que atribui ao Verbo a tarefa criadora, é mais próximo do prólogo do Quarto Evangelho; o que, em princípio, valeria também para Hb 11,2-3. No que respeita a Hb 4,12-13 há também duas ênfases: a vida (“palavra viva”) e a eficácia da Palavra (energes – que pode ser traduzido como efetivo, ativo, poderoso, seguindo o uso de Paulo na Carta a Filemon v.6). No entanto, o valor da primeira deveria ser muito maior! A Palavra Viva é o próprio Verbo Encarnado, e sua eficácia está justamente na vida que cria e transmite!38.

Há diversas citações das Epístolas Paulinas, no entanto, se comparado com Dei Verbum, cuja base é muito mais a Carta aos Romanos. Esta seria, para mim, a opção mais consistente se quisermos tomar a forma como o apóstolo Paulo apresenta a Palavra de Deus. No entanto, o documento enfatiza mais Colossenses (1,15 -17 e 3,16-17) motivado pela sua proximidade teológica como o Verbo como criador e com a imagem d’Ele habitando entre nós, o que também relembra João 1. Portanto, neste caso Colossenses serve como amplificador do caráter joanino do documento: “Dado que “n´Ele (Cristo) foram criadas todas as coisas e em vista d´Ele (...) e n´Ele todas subsistem (Cl 1,16-17), ‘ encontram-se nas tradições religiosas da humanidade ‘sementes do Verbo’ (AG 11.15), ‘raios da verdade que ilumina a todos os homens’ (NA 2)”39.

A Carta aos Romanos é citada muito fortemente na relação entre judaísmo e cristianismo, mostrando a relação que une ambas tradições no que se refere a Primeira Aliança (1,2.14;9,4; 11,29)40. Fora desta ênfase aparece em 8,6-27 à compreensão da paulina da relação entre Palavra e Espírito Divino: “O Espírito Santo faz entender e compreender a Palavra de Deus unindo-Se silenciosamente a nosso espírito (cf. Rm 8,26-27)”41. Romanos 5,8 também Server de ilustração para o famoso texto quase que credal de Jo 3,1642. Ainda dentro do legado Paulino temos a Primeira Carta aos Coríntios, citada como referência à Cruz (1,18; cuja centralidade deveria ser mais destacada); ao anúncio do Evangelho (9,16)43 e à esperança escatológica (1 Cor 16,22). Já 1 Cor 15,24 funciona, como boa parte dos demais textos, como reforço inter-textual da teologia joanina do Verbo Encarnado44.

Há uma grande diversidades de citações em outras partes do documento, mas, em geral parecem ser mais ilustrativas que referenciais. Parece-me que com estas já temos uma boa noção da base escriturística do documento.

A base textual do documento, mesmo com algumas observações, é consistente e ainda oferece, como fui apontando em alguns momentos, possibilidades que poderiam ser mais e melhor exploradas. Pastoralmente, o documento desafia a levar esta compreensão da Palavra Viva, Verbo Encarnado, Palavra de Deus, para dentro da vida da Igreja seguindo três eixos bem evidenciados no documento: Fé, Vida e Missão. Nas palavras do próprio documento: “identidade da Palavra de Deus na fé da Igreja”; “Palavra de Deus na vida da Igreja” e “Palavra de Deus na missão da Igreja”45.

O caráter repetitivo que dá ao documento a forma de “mosaico” acontece pelo cruzamento entre a sua premissa central (o Verbo Encarnado) e cada um destes três aspectos de grande complexidade e diversidade. Vamos, então, examinar algumas questões decorrentes destes três eixos mantendo sobre eles o olhar ecumênico.

Citações:

1 Primeira Parte, Capítulo Primeiro, A. numeral 9, letra c.

2 Idem, letra d.

3 Primeira Parte, Capítulo Segundo, item 15, letra c.

4 Idem, item 18, letra a.

5 Do item “Conseqüências pastorais”, numeral 13 e do Capítulo Segundo, numeral 15, letra a.

6 Capítulo Primeiro, numeral 9, letra a.

7 Idem, letra c.

8 Capítulo Quinto, numeral 32 (último parágrafo).

9 Conclusão, numeral 59 (segundo parágrafo).

10 Da sessão “Palavra de Deus e Eucaristia”, numeral 35, citação 49.

11 Da sessão “A Palavra de Deus na vida do crente”, numeral 41 final do 1o parágrafo.

12 Da sessão “O serviço das pessoas consagradas”, numeral 52, citação 90.

13 Numeral 9, letra e.

14 Numeral 11.

15 Numeral 60, segundo parágrafo.

16 Numeral 25, segundo parágrafo.

17 Numeral 30.

18 Numeral 30, penúltimo parágrafo.

19 Numeral 48, metade do parágrafo.

20 Numeral 59, final do parágrafo.

21 Numeral 60, 2o parágrafo.

22 Numeral 9, letra c.

23 Numerais 23, 24 no 3º parágrafo, 41 no 1º parágrafo, e 43 terceiro parágrafo.

24 Numeral 11 no 2º parágrafo e numeral 18.

25 Numeral 60, 3º parágrafo.

26 Numeral 11, 3º parágrafo.

27 Numeral 11, 3º parágrafo.

28 Numeral 17.

29 Numeral 26 letra b.

30 Numeral 3, 4º parágrafo onde diz: “a certeza de que a Bíblia é revelação da Palavra de Deus, embora com muitas dificuldades de compreensão, sobretudo no Antigo Testamento”.

31 Numeral 36, onde diz: “nota-se que o Povo de Deus não está verdadeiramente introduzindo a teologia da Palavra de Deus na liturgia; vive-a ainda de modo passivo, não se apercebendo do seu caráter sacramental...”

32 Numeral 21, 2º parágrafo: “significa que, para uma exegese correta, é necessário o método histórico-crítico, convenientemente enriquecido de formas de abordagem (...) é necessário servir-se de critérios teológicos (...) Tradição viva de toda a Igreja, analogia da fé”

33 Numeral 25.

34 Numerais 24, no 3º parágrafo; 41 e 43.

35 Numeral 38, letra e.

36 Numeral 8, 2º parágrafo.

37 Numeral 9, letra d.

38 Numeral 15, letra a.

39 Numeral 9, letra b.

40 Numerais 55 e 56.

41 Numeral 26, letra c.

42 Numeral 23, 2º parágrafo.

43 Numeral 43, 2º parágrafo.

44 Idem; 58, 3º parágrafo;

45 Numeral 8.

 
 

A PALAVRA DE DEUS NA FÉ DA IGREJA
Diálogo e ligação com a vida como caminho de encontro com o Verbo Encarnado

 

Esta sessão do documento começa levantando a partir da Constituição Dei Verbum a questão do diálogo na diversidade que é de altíssima relevância tanto para a comunhão interna de uma Igreja quanto para o testemunho da Igreja de Cristo em seu sentido mais amplo:

A Dei Verbum porpõe uma teologia dialógica da Revelação. Nesse diálogo há três aspectos que estão intrinsecamente ligados: a amplidão do significado que o termo ‘Palavra de Deus’ assume na Revelação divina; o mistério de Cristo, expressão plena e perfeita da Palavra de Deus; o mistério da Igreja, sacramento da Palavra de Deus”1.

O reconhecimento de que o diálogo é a forma mais qualificada de acessar a Palavra de Deus aponta necessariamente para a unidade e a comunhão. O diálogo implica no uso criativo e compromissado da inteligência humana, como diz o documento: “a pessoa humana, porque criada, à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26) que se torna para sempre sinal inviolável e intérprete inteligente de sua Palavra”2. O diálogo deve, ao meu ver, ser buscado dentro das próprias Escrituras (isto é, como uma parte dialoga com a outra, dentro de cada Testamento e do Antigo com o Novo). As Escrituras como expressão humana, história e cultural nascem e crescem no diálogo entre Deus e a humanidade (Êx 3, na vocação de Moisés; ou na Oração Sacerdotal de Jesus, Jo 17; por exemplo).

Não é o diálogo como o Verbo Encarnado o sentido epistemológico presente no episódio de Emaús? É claro que revelação última não emana apenas do diálogo, mas da presença viva de Jesus Cristo (entendida como presença real e sacramental), mas como Jesus apresenta o seu modelo de “magistério”? Não o faz através do diálogo ativo com seus discípulos e discípulas? (Mc 8,27-30 e paralelos sinóticos).

No diálogo participam: o Verbo Encarnado (como Palavra Viva e presente na sua Igreja), as Escrituras (como grandeza humana, com Antigo e Novo Testamentos na unidade das Escrituras, e, simultaneamente, fonte sinalizadora da presença do Verbo), as pessoas crentes (expressa na Lectio Divina), o os especialistas da Igreja (representantes da exegese), e o Magistério (como guardião da tradição viva da Igreja e da sua doutrina). O que seria contraditório e pretender que o Verbo, as Escrituras, seus intérpretes sejam populares ou eruditos, se limitassem a repetir a interpretação única do Magistério. Devemos lembrar que o verdadeiro diálogo não é uma competição, mas é mútuo aprendizado. Portanto, dentro da compreensão dialogal da Revelação, não há porque temer à diversidade, mas percorrer sua riqueza como processo de amadurecimento das identidades. O próprio documento deixa isto claro, ao afirmar: “o Magistério da Igreja (...) não é superior à Palavra de Deus”, e que, mesmo tendo o ministério de guardar sua interpretação e transmissão, não é, tampouco a totalidade da Ecclesia. Se assim fosse, todas as demais questões estariam resolvidas pelo próprio Magistério. Perguntamos, então, não seria melhor afirmar que a verdadeira interpretação das Escrituras, através da presença viva do Verbo, com o uso pleno da inteligência humana, deve ser inter-Ecclesia (entre a Igreja e não apenas “na” Igreja; mostrando que há uma diversidade de atores importantes), ou cum Ecclesia, cada um/a com sua responsabilidade e co-responsabilidade, interdependência? Não estaria no estímulo destes diálogos a recuperação da motivação popular e eclesial para o estudo das Escrituras na busca do encontro vital com o Verbo Encarnado? Não seria isso o que é proposto no documento quando se refere a “um diálogo construtivo entre exegetas, teólogos e pastores” que “permitiria traduzir a reflexão teológica em propostas de evangelização mais incisivas”?3

Neste contexto se entende que o Estudo Bíblico não seja apenas literal, nem apenas cognitivo, mas vital, deveríamos considerando este dialogo como uma anamnesis. Assim como na Eucaristia, quando vivenciamos com Cristo o mistério da sua presença através do seu Corpo e Sangue, a anamnesis bíblica, diretamente ligada à vivência sacramental da Palavra, buscaria motivar a vivência da revelação no cotidiano das pessoas através da vida litúrgica e sacramental da Igreja. Trata-se, portanto, não apenas de saber, mas de um viver! (Lc 10,21s).

Nesta sessão se levanta por primeira vez o alerta para o perigo do fundamentalismo: “Mas também não faltam os riscos de uma interpretação arbitrária e redutora, resultantes sobretudo do fundamentalismo, que faz com que, por um lado, se manifeste o desejo de permanecer fiéis aos Texto, mas, por outro, se ignore a própria natureza dos textos, caindo em erros graves e até gerando conflitos inúteis”4. Esta é sem dúvida, uma preocupação ecumênica, pois este tipo de leitura tem provocado muita dor e divisão em diversas igrejas. Fundamentalismo, no entanto, não é apenas a leitura literalista, é também, e as vezes até mais, uma leitura dogmática! Gabriel Hebert escreveu, em 1957, uma das primeiras sistematizações sobre o “movimento fundamentalista” e sua teologia. Nesta obra lembra que o fundamentalismo, que parece um problema tão contemporâneo, nasceu logo após a Primeira Guerra Mundial (nas primeiras décadas do século XX) nas Igrejas Protestantes dos Estados Unidos de Norte-América. O programa fundamentalista inclui diversas questões, todas ligadas a uma leitura dogmática da Bíblia, como: defesa dos fundamentos da fé e da compreensão bíblica evangélica como sola scriptura e inerrância literal; ataque e condenação peremptória da crítica bíblica acusada, entre outras coisas, de extremos como panteísta e atéia; a rejeição de qualquer teoria científica que questiona o “criacionismo” assim como lido literalmente nos textos da criação em Gn 1-3; o ataque as chamadas heresias modernas entre elas o próprio catolicismo romano (alvo antigo), mas também hoje, as igrejas protestantes históricas que incorporaram a leitura crítica das Escrituras e a vivência mais fortemente sacramental; a constante comprovação da eficácia da fé evangélica a partir de testemunhos pessoais e a missão global contra as heresias modernas, mas, também, contra todo o universo religioso não-cristão (incluindo o judaísmo, islamismo, budismo e demais religiões)5.

Quando falamos de fundamentalismo tratamos de um movimento bíblico poderoso, global, que penetra constantemente na religiosidade popular e na vida eclesial. Como contraponto, só temos a busca da leitura da Bíblia aberta e dialogal, ligada à vida, fortalecida pelo convívio ecumênico e pelo intercâmbio de informações com a ciência, também de forma crítica em relação a própria ciência, parece ser o caminho seguro para nos reunirmos em paz, unidade e amor ao redor do Verbo Encarnado, segundo seu Novo Mandamento (Jo 13.34-45).

Este caminho é indicado no documento em diversos momentos. Entre eles achei especialmente inspiradora a pergunta: “Como ir da vida ao texto e do texto a vida? (...) Como ler a Bíblia com a vida e a vida com a Bíblia?6. Sem dúvida que por este caminho se evitam boa parte dos males identificados neste documento, como o subjetivismo individualista, ou ainda a leitura mágica dos textos bíblicos7.

Citações:

1 Capítulo 1º (Introdução).

2 Numeral 9, letra b.

3 Numeral 40, final.

4 Numeral 20, último parágrafo. Numeral 29!

5 Gabriel HEBERT. Fundamentalism and the Church. Philadelphia: The Westminster Press, 1957 (p.18-19 e 85s).

6Numeral 22, letra e.

7 Numeral 23.

 
 
 

A PALAVRA DE DEUS NA VIDA DA IGREJA
A busca do encontro vital com o Verbo Encarnado

 

Esta sessão abre com uma ênfase marcadamente mariológica, à qual já nos referimos na apreciação global do documento. No entanto, em se tratando da vida da Igreja, temos que reconhecer que as mulheres têm sido cada vez mais as impulsionadoras de uma leitura bíblica vital, não apenas uma leitura para elas, mas uma leitura com elas na Igreja e para a vida da Igreja, na busca do encontro vital1 com o Verbo. Não é este, essencialmente, o exemplo de Maria, das mulheres profetizas e portadoras da revelação no AT, das discípulas do Senhor, como Maria Madalena e outras, das companheiras do apóstolo Paulo em sua missão (magnificamente retratadas na lista de Rm 16? Entendo que o sentido do “silêncio” é a abertura para a “escuta”2 ou, no sentido mais amplo à “contemplação” da Palavra Viva. Contudo, não pode ser aplicada como estímulo a uma atitude “passiva”. A Pontifícia Comissão Bíblica resume estimula à “gente humilde e pobre pegar na Bíblia, podendo dar à sua interpretação e à sua atualização uma luz mais penetrante, do ponto de vista espiritual e existencial, que a que vem de um ciência segura de si”3. Maria é ao mesmo tempo “modelo providencial de toda escuta e anuncio” e o “anuncio” é, segundo a teologia profética, conseqüência da “escuta”, mas também da percepção crítica da realidade vital onde nasce a “denúncia”! O Cântico de Maria, poderíamos assim dizer, “anuncia denunciando”, que “precipitou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). O povo que escuta, contempla, e logo denuncia e anuncia, esta dinâmica é a ação do Espírito dentro da Igreja! Não é esta uma das “expectativas comuns” que aparecem no começo do documento: “a urgência de que o laicato não seja apenas um sujeito passivo, mas se torne, ao mesmo tempo, ouvinte da Palavra de Deus e seu anunciador, devidamente preparado e apoiado pela comunidade”?4

A proposta da revisão do/s lecionário/s é um caminho concreto de encontro vital no ecumenismo apresentado pelo documento! Além de no Anglicanismo a Lectio Divina e o uso litúrgico da Bíblia ser guiado por lecionários, outras igrejas também o fazem, especialmente as luteranas! Sabemos que à luz dos conhecimentos bíblicos acumulados nos últimos séculos e das transformações da vida da Igreja a revisão do lecionário dominical e porque não, também o diário, poderia ser um magnífico lugar de encontro fraterno entre diversas igrejas, seus pastores, teólogos e exegetas, e um grande serviço ao Povo de Deus5.

No entanto, quando pensamos em unidade e diversidade, parece faltar no documento, a ênfase no caráter plural das Escrituras, especialmente quando afirma: “A proclamação da Palavra de Deus contida na Escritura é ação do Espírito Santo: como operou para a Palavra se torna-se Livro, agora na liturgia transforma o Livro em Palavra”6. O tratamento plural das “Escrituras”, que, mesmo na sua denominação “Bíblia” é um plural, como “um livro” pode passar uma idéia excessivamente homogênea. Todos os livros de “Introdução à Bíblia”, mesmo os mais populares explicam que a Bíblia é mesmo uma “Biblioteca”7. No documento isto é dito nos seguintes termos: “a religião cristã não se pode definir ‘religião do livro’ em termos absolutos, uma vez que o Livro inspirado pertence de forma vital a todo o corpo da Revelação”8. Em todo o Antigo e Novo Testamento a Bíblia é vista como um conjunto de textos inspirados, e não um único livro ou rolo. Jerônimo também usa o plural Scripturarum9, o que certamente não retira em nada seu caráter unificado e sagrado, preservando ao mesmo tempo a diversidade de seus contextos e protagonistas. Uma visão por demais homogênea vinculada diretamente à palavra humana portadora das verdades divinas nas Escrituras, aumentará as dificuldades de relacionamento entre as suas partes. A diversidade soico-histórica e literária não tem por que ser vista como oposta à unidade mística da revelação em seu conjunto, muito pelo contrário, deveria servir com comprovação de que, no meio de uma experiência inconstante e, às vezes, contraditória, nas palavras da Carta aos Hebreus: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). O documento logo adiante afirma que, no enfrentamento das “páginas difíceis” da Bíblia, faz falta “uma reflexão orgânica de caráter exegético-teológico, mas também antropológico e pedagógico10. Certamente se estará mais perto da solução desta questão quando, no entendimento do conjunto das Escrituras, se aplique o diálogo com a diversidade da própria revelação, o que certamente capacitará para encontrar a unidade viva do Verbo dentro da fé cristã e dentro de cada igreja.

A PALAVRA DE DEUS NA MISSÃO DA IGREJA

Aqui continua e se reafirma a ênfase no encontro vital entre e vida. Esta relação é logo explicitada no começo da sessão: “No anuncio da Boa Nova, a missão da Igreja está intimamente ligada à experiência da Palavra de Deus na vida11. No encontro da vida todos devem participar para ser primeiro envolvidos pelo Espírito do Verbo Encarnado, apresentado com grande guia, protetor e ensinador (Jo 14,15-17 e 16,12-14). Esta participação, como bem indica o texto, deve ser qualificada e diversificada: “é necessário difunda a prática da Bíblia – isto é, da sua leitura, reflexão e práxis – com oportunos subsídios, criar o movimento bíblico entre leigos, cuidar da formação dos animadores dos grupos, com especial atenção aos jovens, propondo do conhecimento da fé através da Palavra de Deus, inclusive aos imigrados e quantos procuram o sentido da vida”12.

Para conseguir este efeito, no mundo globalizado e multi-cultural em que vivemos, seria um tanto ingênuo pretender que qualquer igreja particular, mesmo a Igreja Católica Romana, possa fazê-lo sozinha. Além de pairar sobre este movimento o perigo do fundamentalismo (abordado diversas vezes no documento) estamos dentro de um sistema tecnológico e de mercado que, por um, lado aprisiona as camadas mais ricas em um intrincado mundo de informações e afastando-as da realidade das relações sociais, políticas e religiosas; e, por outro lado, mantém duas terceiras partes da população humana, de forma absolutamente inexplicável e desnecessária, apenas sobrevivendo, sem a mais mínima condição de acessar qualquer informação e de ser sujeito de transformação do mundo conforme a vontade e exemplo do Verbo Encarnado.

O documento reconhece oportunamente, mas, ao meu ver, timidamente, o fato de que: “a Bíblia é hoje o maior ponto de encontro para a oração e o diálogo entre as Igrejas e as comunidades eclesiais (...) a fé que nos une e as diferentes acentuações na interpretação da mesma Palavra são um convite a redescobrir juntos as motivações que provocaram a divisão”. Esta constatação transforma-se, então, no desafio de “o diálogo ecumênico coma a Palavra de Deus” pode “produzir outros efeitos benéficos13. O diálogo ecumênico é um encontro vital motivado pelo amor do Verbo pelo mundo (Jo 3,16) que, mesmo sem ainda chegar ao podemos chamar de “unidade visível” promove, nas palavras do documento, um ecumenismo espiritual, como testemunho que fortalece às igrejas e apresenta ao mundo uma Boa Nova de arrependimento, justiça, amor e paz. Já há uma longa caminhada neste sentido que pode perfeitamente ser consolidada e desenvolvida, tanto dentro da Lectio Scolástica (isto é, da Academia Teológica) quanto dentro da Lectio Divina (nos movimentos leigos e populares que agem em prol de mundo melhor). Neste mesmo sentido deve se considerar a aproximação e leitura conjunta das Escrituras tanto com o judaísmo (com o qual, como mostra claramente o documento, nutrimos uma profunda ligação escriturística), quanto com muçulmanos e com todas as outras religiões dentro de um diálogo vital e comprometido com a paz; tudo o que fica bem e exemplificado no encontro de Assis em 198614, mas que deveria buscar reflexos concretos e conjuntos, em todos os lugares e situações mais próximas do cotidiano.

Citações:

1 Conforme João Paulo II, numeral 38, 3º parágrafo.

2 Final do numeral 24.

3 Numeral 27, penúltimo.

4 Numeral 3, 10º parágrafo.

5 Numeral 33.

6 Numeral 34,3º parágrafo.

7 P. GRELOT. Introdução à Bíblia: “Pois este livro não é um livro, e sim uma biblioteca”, p.16. São Paulo; Paulinas, 1975.

8 Numeral 10, 2º parágrafo.

9 Numeral 13.

10 Numeral 45 penúltimo parágrafo.

11 Numeral 42.

12 Numeral 53, 2º parágrafo.

13 Numeral 54, 2º parágrafo.

14 Numeral 57, 2º parágrafo.

 

UM AGRADECIMENTO

A leitura deste documento faz que, em primeiro lugar, agradeça a Deus por poder estar, dentro da precariedade da minha apreciação, podendo dar alguma contribuição para a Igreja Católica Apostólica Romana que, na busca da unidade e na vivência do ecumenismo é, para nós, uma referência obrigatória. Agradeço a Deus por participar deste encontro vital, dialogal e ecumênico ao redor do Verbo Encarnado. Especialmente elevo meu agradecimento pelas pessoas que lembraram do meu nome para tal tarefa, não só por poder estar aqui, mas pela oportunidade de aprendizagem que me foi oferecida.

Santa Cruz do Sul, 23 de Novembro de 2008.

 
 
 
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