::: Artigos
 

ALGUNS TRAÇOS ACERCA DA TEOLOGIA FEMINISTA

Jones Talai Mendes(1)

 
Resumo
 

Este artigo oferece alguns traços que permitem situar a pertinência e o estatuto teológico da Teologia Feminista e sua relação com as questões de Gênero. A Teologia Feminista é teologia crítica da libertação à medida que aponta e denuncia as relações de opressão existente nas relações de Gênero e por vezes ratificada por teologia de matriz patriarcal e imagens de Deus pautadas nessa matriz. Trata do desafio da Teologia Feminista no contexto latino americano e apresenta algumas de suas características.
Palavras-chave: feminismo, gênero, teologia, Bíblia.

 

Introdução

 

Este pequeno artigo pretende tematizar algo do que é a Teologia Feminista. Para isso procuramos relacionar o fenômeno do Feminismo com a Teologia, enquanto teologia crítica. Assim também aponto para o papel da Teologia Feminista na América Latina e também para as atuais leituras de gênero que problematizam a questão do que significa ser mulher e ser homem a partir da reflexão teológica.

 
 

A Teologia Feminista

 

A Teologia Feminista, tal como a conhecemos hoje começou na década de 1960, embora possamos falar de teólogos feministas, sem esse título, ao longo da história da Igreja, sobretudo nos séculos XIX e XX. A teologia feminista se insere no contexto mais amplo de um movimento feminista que assume muitas formas ideológicas e atinge todas as fases da vida humana e todas as disciplinas acadêmicas.

Um dos primeiros trabalhos teológicos na área é “The Church and the Second Sex”(2) A Igreja e o Segundo Sexo, de Mary Daly (1968), que lidera um movimento que foi gerando gradativamente um corpo de teólogas escrevendo em todas as disciplinas teológicas e eclesiais.

Muitas vezes, a teologia feminista é mal interpretada como teologia de mulheres ou de temas femininos, e não como uma teologia da libertação que se opõe às estruturas sociais opressoras que afetam mulheres e homens igualmente. Essa teologia origina-se criticamente em uma situação cultural e social androcêntrica, em que as mulheres são subordinadas e tratadas sem direitos iguais.

O pano de fundo da teologia feminista é a sociedade como um todo. Busca a igualdade entre homens e mulheres conjuntamente. A teologia feminista lê as fontes da teologia, a Escritura e a Tradição, no sentido de gerar uma compreensão da salvação cristã que tenha relevância social em uma Igreja e em uma sociedade patriarcais(3).

 
(1) - O autor é professor de Teologia, coordenador do Centro de Estudos Bíblicos no Rio Grande do Sul CEBI-RS e assessor para espaços teológicos da Fraternidade Palavra e Missão.

(2) - Em continuidade à análise de Simone de Beauvoir: O Segundo Sexo.

(3) - Estruturalmente semelhante à teologia feminista, a teologia womanista representa a interpretação dos símbolos cristãos pelas mulheres negras, que se distinguem tanto das teólogas feministas brancas como dos teólogos negros. As hispânicas também desenvolveram uma teologia específica. Cf. Roger Haihgt. Jesus: Símbolo de Deus. Paulinas. 2003.

 

Feminismo e Teologia

 

Segundo Elisabeth Schüssler Fiorenza(4), não se sabe quem foi que usou pela primeira vez a expressão “teologia feminista” para caracterizar esse novo modo de fazer teologia a partir de uma perspectiva de mulheres.

Para a autora, o sexismo(5) é uma das formas de opressão que estereotipa e limita as pessoas por causa de seu sexo. Em uma sociedade sexista, o papel predominante da mulher é o de ajudante do homem. Sua identidade se dá a partir de sua condição de submissão ao homem. Por isso há uma critica feminista da cultura e da religião na medida em que estas mantêm a mulher em uma situação de dependência e ausência de liberdade. A cultura e a religião sexistas constroem uma sociedade em que “não apenas os homens, mas as próprias mulheres interiorizaram esta imagem e compreensão de si mesmas como inferiores e derivativas. Por isso o movimento feminista exige uma redefinição dos papéis e imagens das mulheres e dos homens, para que as mulheres se tornem pessoas humanas e se realizem em igualdade econômica e política(6).

 

 

O feminismo, diante desta imagem cultural, sustenta que as mulheres são pessoas humanas que como tal devem ter pleno desenvolvimento de suas personalidades. Afirma que os direitos, talentos ou fraquezas humanas não são divididos por sexo. Reivindica que há necessidade de as mulheres tornarem-se econômica e socialmente independentes para que possam autonomamente assumir a responsabilidade plena por suas vidas. O feminismo critica todas as instituições que, de um modo ou de outro, exploram as mulheres, as estereotipam, as mantêm em posições inferiores. Isso inclui aquelas dimensões do cristianismo que as igrejas e as teologias promovem, e que a partir de uma ideologia sexista, perpetuam a inferioridade da mulher, seja por meio de suas desigualdades institucionais ou das justificações teológicas da diferença inata das mulheres em relação aos homens(7).
 
(4) - Elisabeth Schüssler Fiorenza. Discipulado de iguais: uma ekklesia-logia feminista crítica da libertação; tradução de Yolanda Steidel Toledo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, p. 66-92.

(5) - Atitudes, posturas, ações discriminatórias contra o sexo feminino.

(6) - Idem, p. 69.

(7) - Idem, p. 70..
 
 

A Teologia Feminista como Teologia Crítica

 

Muitos estudos históricos e hermenêuticos mostram que a teologia é um empreendimento cultural e historicamente condicionado. A própria revelação de Deus nas escrituras é expressa em linguagem humana a partir de conceitos e questões estabelecidas historicamente. Tanto as escrituras quanto a teologia partilham de um contexto cultural patriarcal e cultural sexistas. Buscam expressar a verdade em linguagens, imagens e tendências situadas nesse ambiente.

A partir disso, a teologia feminista problematiza a perspectiva cultural androcêntrica no sentido de promover uma re-leitura da tradição cristã, analisada a partir de um ponto de vista da mulher. Deve-se dizer que esta revisão hermenêutica é apenas uma solução parcial do problema, visto que a tradição androcentrada não apenas oferece uma visão de mundo, mas também promove inverdades, repressão e dominação.

O pressuposto metodológico da teologia crítica é a constante necessidade de renovação da comunidade cristã. A teologia feminista pressupõe e tem como meta uma práxis teológica e eclesial emancipadora.

Ao analisar o Sitz im Leben (lugar na vida) em que a teologia é normalmente produzida, as teólogas feministas percebem que esta é feita por clérigos (homens) brancos, num contexto acadêmico, de classe média onde fatores inerentes a essas caracterizações determinam seu discurso teológico. Nessa perspectiva “a teologia cristã não é apenas branca de classe média e sim branca, de classe média e masculina, compartilhando, como tal, do sexismo cultural e do patriarcalismo”.(8)

Ao criticar o sistema simbólico e pensamento andro-normativos, a teologia feminista trata também da análise dos mitos, dos mecanismos, sistemas e instituições que colocam a mulher em situação humilhante e de inferioridade. Assim esta teologia, enquanto procura novos paradigmas para mulheres e homens, promove novos símbolos, mitos, etilos de vida, questões, horizontes, compartilha dos interesses e metas da teologia da libertação.

 
(8) - Idem, p. 77.
 

Perspectiva Escatológica

 

Segundo Fiorenza, “a teologia feminista deduz sua legitimação da visão escatológica de liberdade e salvação, e seu radicalismo, da compreensão de que a Igreja cristã não é idêntica ao Reino de Deus”.(9) O texto de Gálatas 3, 27 “já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” fascina a perspectiva de igualdade, integridade e liberdade. A teologia feminista levanta crítica ao androcentrismo eclesial, onde apenas homens podem aspirar certas funções ministeriais.

Diz que as igrejas cristãs superarão suas tradições patriarcais e opressivas do passado e suas ideologias do presente quando a própria base e função dessas tradições forem modificadas. Nesse sentido, não adiantaria colocar vinho novo em “odres velhos”. Novas relações só se darão em novas estruturas teológicas e eclesiais. A Teologia feminista, como a teologia da libertação, desemboca em práticas transformadoras.(10) Torna- se necessário a construção de uma linguagem teológica feminina, que contemple a presença e a experiência das mulheres na Igreja e caminhe no sentido de promover novos símbolos, imagens e mitos.(11)

 
(09) - Idem, p. 81.
(10) - Libânio & Murad. Introdução à Teologia: perfil, enfoques, tarefas. Loyola. São Paulo. 1996, p.257.
(11) - Nesse sentido seria interessante contemplar a critica feminista do mito de Maria, com suas riquezas e limitações, entre estas o uso ideológico da mariologia tradicional no sentido de dissuadir as mulheres de se tornarem plenamente independentes, como pessoas humanas integrais. Cf. Elisabeth Schüssler
 
 

Teologia Feminista na América Latina

 

A teologia feminista na América Latina deve contemplar a situação das mulheres nesse contexto histórico específico. A teologia feminista na AL parte da descoberta da mulher como sujeito histórico oprimido e discriminado. Sujeito discriminado também da produção teológica. Esse passo foi fundamental para o começo de uma construção de uma consciência feminista com rosto próprio. O feminismo latino americano não é o feminismo dos países ricos.

No início não havia grande diálogo das mulheres teólogas com os movimentos feministas latino americanos nem com as feministas do chamado primeiro mundo. A politização e a ideologia não permitiam aproximação. As feministas rejeitavam a religião e desconfiavam das teólogas ao passo que estas descartavam qualquer reivindicação feminista que não estivesse articulada a libertação econômica global da sociedade.

Surge uma nova leitura bíblica, onde se procura articular e explicitar que a mulher está implícita na categoria de pobre, e a opção pelo pobre significa também opção pela mulher pobre. As leituras bíblicas vão sendo marcadas pela esperança de uma nova sociedade de igualdade econômica e de novas relações entre homens e mulheres. As mulheres feministas chamam a atenção para a necessidade de uma linguagem inclusiva e criticam a invocação do divino em categorias masculinas.

Nos anos de 1980 começa um aprofundamento do diálogo sobre a mulher e sua atividade teológica com os teólogos da libertação. Essa problemática assume contornos mais amplos e deixa de ser uma exclusiva questão de mulheres para ser um desafio mais amplo, ainda que a mulher seja a protagonista principal. Pode-se falar de um movimento da libertação feminista ou feminista da libertação.(12)

Um dos desdobramentos da teologia feminista atualmente se faz presente na temática do Ecofeminismo. No Ecofeminismo confluem duas preocupações básicas e atuais: a Ecologia e o próprio feminismo. Preocupado com a configuração da dominação sobre as mulheres e a natureza o “ecofeminismo quer analisar as tramas dos padrões culturais, sociais e simbólicos pelos quais os seres humanos se distanciam da natureza, e como a partir de uma postura androcêntrica e patriarcal, ocorre uma fragmentação, uma separação entre homens e mulheres, entre os gêneros e entre a espécie humana e a natureza.”(13) O feminismo, ao menos latino americano propõe uma visão holística.(14)

 
 
(12) - Cf. Virginia Azcuy. Igrejas Cristãs na Encruzilhada: Reflexões teológicas a partir da Argentina, América Latina e Caribe. In: Concilum. Revista Internacional de Teologia. 316 Vozes. (2006/3)
(13) - Elaine Neuenfeldt. Fontes e Caminhos Ecofeministas. Série: A Palavra na Vida. 175/176. CEBI. São Leopoldo, p. 5.

(14) - Interpreta a fé cristã a partir da ótica da reciprocidade, que compreende o ser humano como unidade e diversidade homem-mulher. Como teologia holística colabora na eliminação de todas as separações funestas entre corpo e espírito, terra e céu, homem e mundo, natureza e história, sem nivelar as polaridades e tensões do que deve constituir uma unidade criativa e fecunda. Libânio & Murad. Introdução à Teologia: perfil, enfoques, tarefas. Loyola. São Paulo. 1996, p. 256.

 

A Leitura de Gênero

 

A hermenêutica de gênero(15) é um caminho e ao mesmo tempo um apelo para que as pessoas pensem: O que é ser homem? O que é ser mulher? Essas questões são contempladas a partir da necessidade de superar modelos que resultam insatisfatórios ao tratar das relações humanas a partir de suas especificidades. A hermenêutica de gênero está no caminho da teologia feminista da libertação sem, no entanto se confundir com ela.

Gênero é o sexo socialmente construído. A identidade sexual enquanto produto da cultura, onde muitas vezes residem relações de opressão é que devem ser superadas. A construção de identidades se dá de maneira relacional. A partir da relação consigo mesmo, com a ecologia(16), com o divino, com a comunidade.

A hermenêutica de gênero é um caminho de reconstrução social. A leitura de gênero repensa as imagens de Deus que construímos a partir de uma antropologia crítica(17) e inclusiva, onde homem e mulher possam tecer relações mutuamente libertárias.

A hermenêutica de gênero(18) lida também com temas como corpo, sexualidade, poder, linguagens, alteridade, ecumenismo, etnia etc. Esta hermenêutica tem a função positiva de reconstruir os paradigmas em termos de uma retórica crítica que entende as tradições e os textos bíblicos como uma herança viva.(19) Tal herança não legitima a opressão patriarcal, mas tem a capacidade de promover práticas libertadoras de comunidades de fé. É um tema bastante desafiador por não ser apenas um tema a ser tratado em nível acadêmico ou intelectual. Desafia as pessoas a olhar para as experiências vividas e narradas a partir de suas próprias histórias. De fato, não são todos que tem essa disposição, pois como se diz popularmente: “A gente tem que começar em casa”.

 
(15) - Falar de uma Hermenêutica de Gênero recoloca alguns problemas, sendo uma primeira questão a de quem escreveu esses textos bíblicos. Do ponto de vista de Gênero, de modo geral, os textos bíblicos são escritos ou atribuídos a homens, os quais falam ou botam as palavras na boca das mulheres. As falas das mulheres parecem ficar subscritas, estão presentes, porém explicitamente ausentes. Nesse sentido, os textos expressam uma cultura, uma visão de mundo próprias da sua época, reproduzindo também as suas relações de gênero e seus conflitos. Cf. Maria Helena da Silva Mutzenberg. Uma Hermenêutica de Gênero, in: Hermenêutica Feminista e Gênero. Série: A Palavra na Vida. 155/156. CEBI. São Leopoldo, p. 43-44.
(16) - Nesse sentido existe o chamado ecofeminismo, onde são pensadas as relações entre feminismo, poder e ecologia. Essa relação é pensada a partir da categoria de gênero.
(17) - “Romper com a antropologia androcêntrica a partir de uma nova antropologia apoiada numa visão humanocêntrica., que considera mulher e homem imagem e semelhança de Deus. Homem e mulher como sujeito e agente com igualdade de direitos e responsabilidades, pela organização do cosmos nas diversas dimensões: social, econômica, política, ecológica, religiosa, ideológica, ete. Lucia Weiler. O que Consideramos ser uma Hermenêutica de Gênero? In: Hermenêutica Feminista e Gênero. Série: A Palavra na Vida. 155/156.CEBI. São Leopoldo, p. 36

(18) - Gostaria aqui de assinalar alguns nomes de mulheres que fazem teologia feminista e/ou de gênero no Brasil, para oferecer referências a quem se interessar pelo assunto. A lista está aberta pois esta lista, a faço de memória: Wanda Deifeldt, Elaine Neuenfeldt, Maria Soave, Nancy Cardoso Pereira, Marga Ströher, Tereza Cavalcanti, Téa Frigério, Lúcia Weiler, Mônica Otterman, Agostinha Vieira de Mello, Ivone Gebara, Ana Maria Tepedino, Maria Clara Bingemer etc

(19) - Teresa Mee. O que Consideramos ser uma Hermenêutica de Gênero, in: Hermenêutica Feminista e Gênero. Série: A Palavra na Vida. 155/156. CEBI. São Leopoldo, p. 44
 

Conclusão

 

Enfim, são muitos os desdobramentos possíveis que hoje nos trazem as chamadas teologias de contexto ou ainda de genitivo, onde um tema ou aspecto da realidade são abordados usando um enfoque hermenêutico que ajude, a luz da fé, a decifrar uma dimensão da existência humana. Segundo Libânio, “alunos que leram somente os escritos ‘de ponta’ da teologia da libertação das décadas de setenta-oitenta, sentem sérias dificuldades de compreender as novas temáticas da subjetividade”(20), onde podemos contemplar a teologia feminista com suas grandes exigências. De fato é necessário encontrar espaço para discutir as questões de gênero em suas diversas matizes também no âmbito da teologia para que esta possa não só estar atualizada das grandes temática de interesse contemporâneo, mas também para que possa enriquecer-se das perguntas e respostas que a sociedade oferece.

As questões de gênero que se desenvolveram a partir da teologia feminista hoje são objeto de estudos e discussões em diversas áreas como a sociologia, a psicologia, antropologia, filosofia etc. Como ficar a teologia alheia a uma questão que trilha um irrefreável caminho?

 
(20) - Libânio & Murad. Introdução à Teologia: perfil, enfoques, tarefas. Loyola. São Paulo. 1996, p. 253.
 
 
Copyright © 2008 Jones Talai Mendes. Todos os direitos reservados.