Entre
o mercado e o púlpito:
Igrejas evangélicas crescem em território
católico
Centenas
de igrejas evangélicas desembarcam na Espanha
com os imigrantes. A porcentagem de protestantes
na América Latina já alcança
20% da população.
Algumas organizações fazem negócios
às custas da fé
María
Antonia Sánchez-Vallejo - Em Madri –
El Pais
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Na América
Latina se rompeu o monopólio da fé.
O pluralismo e a concorrência dominam o
cenário religioso; o proselitismo assume
as leis do mercado - e as técnicas de comunicação
multimídia - e parte de uma paróquia
tradicional ou nominalmente católica passa
para as igrejas evangélicas. Falar em transferência
maciça não é exagerado: calcula-se
que entre 10% e 20% da população
sul-americana sejam protestantes, de 20% a 30%
na América Central e mais de 31% na Guatemala.
Exemplos do fenômeno do fundamentalismo
cristão, as novas igrejas latinas arrastam
massas populares e começam a exportar pastores.
Também para a Espanha: os imigrantes reproduzem
suas comunidades religiosas ou as criam novamente,
o que os ajuda a salvar-se do isolamento da imigração.
Surgem "como cogumelos" - nas palavras
de um pastor protestante - igrejas livres, autônomas,
informais, o que também representa um risco
de penetração de seitas ou grupos
de filiação duvidosa.
O Vaticano
considera uma "sangria que não pode
ser parada" a deserção dos
católicos - no caso de que o fossem anteriormente
- para as fileiras protestantes e a atribui a
um "proselitismo agressivo" - os termos
entre aspas são declarações
do papa Bento 16 -, mas os evangélicos
aproveitam a distância secular, na sua opinião,
entre o clero e os fiéis católicos
para ganhar terreno. São protagonistas
desse fenômeno as igrejas pentecostais,
que salientam a ação direta do Espírito
Santo e seus dons - a cura, a profecia ou o dom
das línguas -, o que na prática
se substancia em cerimônias participativas,
inclinadas ao êxtase coletivo. Pentecostais
são os pregadores que, na América
Latina e na Espanha, dominam as ondas ou as antenas
de várias rádios e televisões
locais. Pastoreiam comunidades formadas majoritariamente
por fiéis de baixo nível social
e, no caso dos imigrantes, de seres que regulam
sua nova vida através da experiência
religiosa. Mas por trás de algumas siglas
ou nomes há interesses equívocos,
quando não negócios - às
vezes autênticas multinacionais - em nome
da fé.
O que
representa essa proliferação de
novos movimentos religiosos na América
Latina? E na Espanha, representa algum desafio?
Há algum filtro, modos de garantir a idoneidade
das novas igrejas? "Na Espanha há
cerca de 2.600 igrejas evangélicas, e 2.100
estão registradas em nossa federação.
O resto não se inscreve porque é
muito recente, ou porque estão em processo
de constituição ou porque não
querem", afirma Mariano Blázquez,
secretário-executivo da Federação
de Entidades Religiosas Evangélicas da
Espanha (Ferede), interlocutora diante do governo
espanhol. À lista de igrejas oficiais somam-se
centenas de igrejas espontâneas, às
vezes efêmeras. "(No âmbito protestante)
os grupos não precisam da aprovação
de um bispo ou de uma hierarquia para funcionar.
Qualquer um pode criar uma igreja, e essa é
exatamente nossa grande fraqueza. Não podemos
evitar excessos ao amparo da liberdade. O único
que podemos fazer na Ferede é explicar
qual é a realidade espanhola e acompanhá-los
no processo de constituição. Os
únicos limites são a legislação
espanhola e o Evangelho", conclui Blázquez,
que confirma um desembarque "difícil
de controlar". Blázquez e os demais
especialistas consultados franzem a testa quando
se levanta o argumento das seitas. "Prefiro
falar de atividades delituosas ou que possam afetar
a personalidade. 'Seita' não tem uma conotação
jurídica, mas por trás de algumas
igrejas há atividades que podem ser perseguidas.
É isso que é preciso denunciar,
trate-se de uma igreja ou de um clube de futebol",
afirma.
O representante
da Ferede se refere concretamente à Igreja
Universal do Reino de Deus (IURD), também
denominada Pare de Sofrer em muitos países
latino-americanos e investigada no Brasil e na
República Dominicana por fraude fiscal,
malversação de fundos e suposta
lavagem de dinheiro do narcotráfico, cujo
exemplo El País pôs na mesa discutir
o problema das seitas. A alusão não
é gratuita. Com outro nome - Comunidade
Cristã do Espírito Santo -, a IURD
está inscrita desde 1993 no Registro de
Entidades Religiosas do Ministério da Justiça
da Espanha. Mas não está na Ferede,
embora Blázquez lembre que não é
obrigatório.
A que
se deve a rejeição de seus pares?
"Ao mercantilismo, à perversão
do Evangelho. Vendem a água do rio Jordão
e cruzes bentas, tudo isso é alheio a nós.
Mas foram eles que retiraram o pedido de registro.
É claro que de nossa parte havia certa
disposição a uma avaliação
desfavorável, pois algumas de suas práticas
são discordantes."
Por exemplo,
o recurso à superfé, o evangelho
da prosperidade, que se baseia em doações
voluntárias como prova de fé. Por
essa via a IURD arrecada bilhões de dólares
por ano, segundo fontes fidedignas. Basta dar
um clique na página da web da Comunidade
Cristã do Espírito Santo para saltar
para outra em que aparece um convite para realizar
doações, seguida de um número
de conta. Não se trata do dízimo
- a contribuição de 10% do salário
para a manutenção da igreja, uma
forma de autofinanciamento nas igrejas protestantes.
Vai muito além.
Mas a
IURD, com a qual El País tentou entrar
em contato sem resultado, não é
a única "igreja" questionada.
Também o são agrupamentos como Juventude
Com Uma Missão (JCUM), a qual o Brasil
acusa de manipular indígenas da Amazônia
e que também está presente em uma
dezena de cidades espanholas, assim como registrada
na Ferede e na Justiça; o instituto Lingüístico
de Verão, controversa associação
americana de difusão da Bíblia arraigada
em comunidades indígenas do Peru, México
Colômbia ou Brasil, ou finalmente o grupo
missionário americano Novas Tribos, que
foi expulso da Venezuela em 2005 por ser, segundo
Hugo Chávez, "agentes de penetração
imperialista".
Exemplos
como este último ano poderiam propiciar
outra leitura: a perseguição por
parte de regimes de esquerda ou populistas a organizações
que disputam os favores das massas. Algo como
um expurgo do populismo contra o povo.
Do povo
procede a onda mais recente de fiéis e
pastores que chega à Espanha. "Os
recém-chegados têm um perfil discreto,
vêm do Equador, de Honduras," explica
Blázquez. "Nada a ver com a imigração
maciça de profissionais de 15 anos atrás,
coincidindo com a primeira crise grave da Argentina.
Alguns já eram evangélicos, outros
se converteram aqui", acrescenta o representante
da Ferede.
Antonio
González, doutor em filosofia e teologia,
ex-colaborador do jesuíta Ignacio Ellacuría
e bom conhecedor da realidade centro-americana
- viveu sete anos na Guatemala e em El Salvador
-, está de acordo: "Os pentecostais
costumam ser de classe baixa ou mesmo de ambientes
de extrema pobreza". O pentecostalismo se
arraiga entre os mais desarraigados, embora também
haja pentecostais de classe média e alta
e inclusive políticos, como o direitista
guatemalteco Efraín Ríos Montt.
"A
proletarização nas grandes cidades
provoca a necessidade de recriar uma nova identidade,
e as igrejas evangélicas oferecem a oportunidade
de forjar essa identidade alternativa", conclui.
Para a maioria dos imigrantes, carentes de referências,
o fato religioso é portanto uma tábua
de salvação. "São muitos
os latino-americanos que não eram protestantes
antes de vir e que se tornam evangélicos
precisamente na Espanha, pois é aqui que
experimentam a proletarização e
a anomia. Também não faltam crentes
que, muito fervorosos em seus países de
origem, na Espanha perdem seu fervor, talvez devido
à prosperidade econômica ou pelo
desejo de ser aceitos", continua González.
"As igrejas evangélicas representam
para muitos deles uma maneira de se integrar,
mas também se corre o risco contrário,
o da criação de igrejas étnicas,
isoladas. Em nossa igreja, por exemplo, há
oito latino-americanos", afirma Pedro Tarquis,
porta-voz da Aliança Evangélica
Espanhola. "Nosso maior seguro, o maior controle,
é a convivência, e o ideal seria
a interculturalidade, mesmo que sejam os filhos
dos que chegam agora que realmente se integrarão.
"Há
costumes diferentes, é verdade, mas pelo
menos temos um idioma comum, coisa que não
ocorre com os emigrantes da Europa do Leste ou
da Ásia", acrescenta Tarquis, que
vê nessa incorporação seiva
nova para as igrejas: "Assim como a realidade
católica nos EUA se sustenta pela presença
de imigrantes latinos, aqui na Espanha poderia
se afirmar o mesmo do movimento evangélico".
Não há cifras do número de
imigrantes latino-americanos na Espanha que professam
a religião evangélica, e os do subcontinente
são aproximados, como vimos. Mas ninguém
duvida do potencial evangelizador da América
Latina.
Pela
primeira vez a América do Sul não
é uma terra de missão, mas um viveiro
de pastores e fiéis. "As igrejas evangélicas
cresceram e seus líderes são autóctones,
não é verdade que sejam produto
da penetração americana, não
mais. A região do mundo que tem mais missionários
é a América Latina, e os manda inclusive
para a América do Norte", explica
Mariano Blázquez.
"Estima-se
que há mais de 9 mil missionários
latino-americanos, enviados e sustentados pela
América Latina, trabalhando em culturas
diferentes da sua. Cerca de 4 mil o fazem na Ásia,
África e Europa do Leste", relata
Samuel Escobar, de origem peruana, catedrático
emérito de Missionologia no Seminário
Teológico Batista da Pensilvânia
(EUA). "A religiosidade evangélica
latino-americana é um fenômeno crescente
e vigoroso", acrescenta. "É difícil
estimar com precisão quantos protestantes
há no continente, mas, por exemplo, no
Peru, segundo o censo de outubro de 2007, a população
protestante maior de 12 anos duplicou desde 1993
e hoje chega a 12,5%. No Chile se aproximaria
de 20%."
E como
é a vivência religiosa dos evangélicos?
Exatamente isso, uma experiência pessoal,
comunitária, vital, que traspassa os limites
do culto para se enraizar no emocional e no cotidiano.
Basta dar uma volta pelos bairros populares das
grandes cidades para constatar a mobilização:
são muitas as convocações
de rua, de folheto na mão, para cultos
e reuniões "de fraternidade"
que pescam, sobretudo no calado dos jovens. Também
proliferam os cartazes pregados em portais, bocas
de metrô ou faróis com apelações
ao "chamado do Evangelho". Os convocantes
podem se chamar, por exemplo, Livres x Cristo,
nome que aparece em um folheto apanhado ao acaso
em um bairro de Madri com alta porcentagem de
imigração latina. "Renovação
juvenil", anuncia o papel; "música
com uma mensagem de mudanças para sua vida."
Remetente: Compañerismo La Puerta. A entrada
ao ato, com músicas e obras de teatro,
é grátis.
"A
atração das igrejas pentecostais
é a de uma fé pessoal, compreensível,
fortemente vivencial, diante da experiência
mais anódina, autoritária, fria,
que costumam ter muitos latino-americanos na Igreja
Católica. Inclusive quando o sacerdote
procede de meios muito populares sua formação
o distancia de suas origens mais que os pastores
pentecostais, que permanecem mais próximos
de suas raízes. E normalmente a Igreja
Católica, quando se interessa pelos pobres,
não pode deixar de adotar uma atitude paternalista
devido à forte diferença de classes
que há entre seus líderes e seus
fiéis", salienta Antonio González,
conhecedor do contexto católico, tentando
explicar as razões do sucesso do protestantismo
na América Latina.
"Uma
estudiosa pentecostal americana afirma que os
latino-americanos quando se tornam pentecostais
deixam de ser psicologicamente pobres, embora
na verdade continuem sendo", conclui González,
professor de teologia no Seminário Evangélico
Unido de El Escorial (Madri) e responsável
por estudos e publicações da Fundação
Zubiri.
Inclusive
quando algumas dessas igrejas são às
vezes "mais conservadoras que as européias",
lembra Blázquez, em geral inoculam no crente
"um estilo de vida mais disciplinado - sem
álcool, etc. -, o sentimento de ajuda mútua,
um apoio decidido a suas iniciativas vitais, a
assumir riscos econômicos, etc.", conta
González. "As populações
que adotam o protestantismo são populações
que prosperam, porque aprendem a ler, a respeitar
suas mulheres e adotam uma ética de trabalho
que os faz progredir", comenta Tarquis.
Assim
que, radicalmente livres, refratárias ao
poder, pois na estrutura evangélica não
existe hierarquia - não há bispos
que nomeiem nem cúria que proíba
- e à margem das denominações
tradicionais - batistas, presbiterianos, metodistas
-, as novas igrejas latino-americanas são
protagonistas de um fenômeno sociológico
incipiente na Espanha. Sem controle, mas também
sem pausa. Entre o culto conservador e a mensagem
apocalíptica próxima do milenarismo,
99% das novas igrejas que brotam em nossos bairros
também desempenham um trabalho social:
proporcionam coesão, amparo, apoio econômico
ou uma mão estendida na hora de cuidar
das crianças. Umas poucas, porém,
quase não conseguem mascarar traços
suspeitos, da liderança onipotente ao som
incessante da caixa registradora.
"As
possibilidades de manipulação são
limitadas. É verdade que na América
Latina o pastor protestante pode adquirir os traços
do velho caudilho, mas ao mesmo tempo tem de ganhar
autoridade continuamente, não é
sacerdote no sentido de pessoa sagrada",
aponta Antonio González. Embora o protestantismo
consagre a liberdade e a autonomia, não
há nenhuma maneira de exercer certo controle,
ou pelo menos uma supervisão de suas atividades
e seus fins? Para González, a melhor salvaguarda
diante de irregularidades é o "princípio
bíblico: o pastor pode ser julgado à
luz da Bíblia", embora também
reconheça que os abusos mais freqüentes
têm sido "do tipo econômico".
Pedro
Tarquis propôs em sua época submeter
a auditorias a atuação das igrejas
da Aliança Evangélica Espanhola,
"sobretudo as que já têm um
volume de fiéis considerável".
Não fizeram caso: sua iniciativa foi vista
como uma veleidade de Torquemada, "como uma
tentativa de impor uma hierarquia". Em consonância
com Tarquis, Samuel Escobar, que passa por ser
a autoridade máxima na matéria,
não tem dúvidas sobre o método
a seguir para abortar irregularidades. "É
preciso um consenso social em relação
aos limites da liberdade de que gozamos. Agora
mesmo nos EUA o senador republicano por Iowa Chuck
Grassley conduz uma investigação
sobre as manipulações financeiras
de seis corporações religiosas que
cresceram de maneira notável e mantêm
atividade comercial vigorosa. Quatro delas se
negaram a responder à investigação",
conta Escobar. Igrejas livres? Igrejas "abusivas",
na definição do teólogo evangélico
americano Pat Zukeran? Ou multinacionais da fé?h
Já
vai longe a época em que se via a penetração
evangélica como um instrumento da CIA -
outra teoria que ainda persiste a considera um
contrapeso intencional à Teologia da Libertação
-, parece que as igrejas, evangélicas ou
não, se rendem aos métodos e às
vezes aos fins do mercado. Do outro lado do charco
e sem ir tão longe, como lembra o teólogo
Escobar: "Como seu próprio jornal
informa, o deputado socialista José Camarasa
está tentando nos esclarecer os relatórios
financeiros relativos à visita do papa
a Valência em 2006". Por alusões
evangélicas, quem não tiver culpa...
- Artigo
publicado originalmente no UOL Mídia Global
– 30.08.2008
“Não
tem razão para afligir-se quem dedica às coisas
do Espírito. Louvai por isso Sua Majestade (O Bom Deus)
e confiai em Sua bondade, pois Ele nunca faltou aos seus amigos”